• Emilio Cantini

Minha crença

A ideia nasceu da crença que os dedos do músico estão diretamente ligados ao próprio inconsciente musical. Na música improvisada, precisamos de muita instintividade e pouco raciocínio, pois a frase musical é criada ao mesmo tempo em que a música que esta acontecendo e, o cérebro pensante, através de raciocínios lógicos, não tem velocidade suficiente para acompanhar a criação extemporânea de um fraseado (que tem que ser cada vez mais criativo e diferente) à medida que uma música rápida e cheia de acordes está sendo tocada. Por alguma razão, a ação dos dedos é muito mais rápida do que o pensamento racional, por mais rápido e treinado que ele possa ser. Para verificar isto os músicos mais avançados podem fazer a seguinte experiência: comecem a estudar qualquer exercício de técnica lentamente e depois gradativamente acelerem a batida do metrônomo. Após certo limite de velocidade, que varia de pessoa a pessoa, o pensamento não mais conseguirá acompanhar o movimento dos dedos e eles passarão a se movimentar sozinhos e instintivamente. Acredito firmemente que a expansão dos limites criativos no fraseado musical improvisado seja ligada a libertação dos movimentos dos dedos no instrumento (qualquer instrumento, inclusive a voz).

Vamos analisar a questão de outro ponto de vista. O processo criativo na improvisação segundo Jamey Aebersold acontece na sequência: 1. Cérebro, 2. Voz e 3. Instrumento. Segundo Aebersold as notas do fraseado criadas no cérebro, quase simultaneamente, podem ser reproduzidas com certa aproximação (dependendo da técnica vocal de cada um) com a voz e, finalmente, podem ser tocadas no instrumento com a afinação correta. Quando peço aos meus alunos para imaginar uma frase na cabeça, canta-la e reproduzi-la no instrumento, quase sempre obtenho na voz algo diferente do que sai no instrumento. Este processo é muito bom para o aprendizado básico do instrumento, mas lento demais para nos permitir chegar rapidamente aos limites da nossa criatividade. Demora anos de treino de percepção para afinar a nossa voz e mais anos ainda para reproduzir fielmente o nosso pensamento musical em nosso instrumento, e isso pra tocar "Cai Cai Balão" ou outras melodias simples. Nesta velocidade, quantos séculos iremos demorar em memorizar um solo do John Coltrane, canta-lo e reproduzi-lo fielmente no nosso instrumento? Isto sem contar que saber tocar um solo de Coltrane não nos coloca nem perto do mundo da criatividade e, sobretudo do nosso estilo pessoal e único. Estaremos apenas no inicio do caminho a ser percorrido! Olhando desta perspectiva da até pra entender a origem dos falsos mitos do tipo "jazzista tem que se nascer", "nem todo o musico pode improvisar", etc.

A dúvida que sempre me assolou foi: deve haver um meio mais direto, um atalho para se acessar todo o nosso conhecimento musical adquirido desde que nascemos ou até antes, e poder traduzi-lo instantaneamente em nosso instrumento. A primeira resposta que me ocorreu foi o instinto. Sim, mas como acessar o instinto? Foi assim que as minhas buscas, que culminaram neste trabalho, começaram. A independência dos dedos foi o estalo que faltava na minha cabeça para me permitir solucionar este puzzle.

De certa maneira a mente, quando induzida ao caos (através dos exercícios dos Dedos Livres), tende a criar uma nova organização daquilo. Partindo de uma organização mental para criar uma nova organização, não se consegue. Cada caos criado, tende a gerar uma nova organização; nada melhor do que isto por se tratar de criatividade, que precisa a todo o momento de novas formar se organização. Tentar sair de uma organização mental para uma nova organização, sem passar pelo caos, é praticamente impossível.

Todavia em momento algum, esta técnica quis se sobrepor ou eliminar as outras técnicas tradicionais de ensino da improvisação. Nas minhas aulas continuo usando o método Aebersold ate hoje e continuarei a usa-lo como também uso as mais novas tecnologias informáticas: Band in a Box, gravador de CD, etc. A ideia é trabalhar os dois lados, o racional e o instintivo ao mesmo tempo, para em algum momento eles se juntarem lá na frente e unidos compor o musico ideal que saiba trabalhar das duas maneiras, pois na nossa carreira, como na vida, às vezes precisamos ser técnicos e às vezes criativos ou os dois ao mesmo tempo. No próprio desenvolvimento do solo improvisado, como afirma Aebersold, precisamos de uma parte de criatividade para nos acharmos frases cada vez mais novas e de razão para nunca esquecermos em que parte do chorus a gente está, ou qual é a forma da música que estamos tocando, etc. Acredito que na hora da criação do solo a liberdade dos dedos tenha que ser oportunamente dosada. Somente após anos de treino na mesma música em todos os tons e em todos os andamentos, que poderemos nos entregar mais a liberdade dos dedos e pensar menos, ou até nada.

Chamei esta técnica de Dedos Livres por ser a liberdade e a independência dos dedos o aspecto mais importante a ser trabalhado.

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