TÉCNICA VOCAL PARA COROS (parte I)
IINTRODUÇÂO
Ao longo de minha carreira musical regi e compus música para várias Big Bands, Corais e pequenas orquestras de música erudita. Na Itália compus e regi música para teatro para uma pequena orquestra. Já no Brasil escrevi os arranjos e regi um coral de 100 pessoas para a organização religiosa Soka Gakkai com sede em São Paulo. Fui maestro regente do Coral e Banda da Universidade Estácio de Sá de Nova Friburgo em 2001. Foi baseado nesta minha experiência, e nas leituras que fiz ao longo do meu aprendizado que escrevi esta pequena introdução à técnica vocal para coros.
A VOZ FAZ PARTE DO NOSSO CORPO
A primeira coisa a ser entendida quando se quer iniciar a trabalhar a nossa voz, é a indissolubilidade física dela do resto do corpo. A voz é parte do nosso corpo e é produzida por ele. Esta unidade de voz e corpo nos faz pensar que, por exemplo, se o nosso corpo não estiver bem a nossa voz também não estará, e conseq¸entemente se o corpo tiver em perfeita saúde a nossa voz também se beneficiará com isto. Cuidar da saúde do corpo portanto, necessariamente deve se tornar uma responsabilidade primordial para o aspirante a cantor. Adquirir sabedoria e conhecimento de nossos limites físicos é também de suma importância para tal empreendimento. O cigarro, as bebidas alcóolicas e as drogas são altamente prejudiciais a nossa saúde, e portanto a saúde da nossa voz (as cordas vocais mais especificamente) depende diretamente do uso que fazemos de nosso corpo.
A personalidade que vai se formando ao longo de nossa vida - recebendo estímulos externos e interagindo da melhor forma que achamos com meio ambiente e com os outros - se repercute diretamente no som da nossa voz. Os problemas psicológicos em geral, também se projetam diretamente na nossa emissão sonora, por exemplo: uma personalidade tímida fala mais para dentro e baixo; uma pessoa que passou por alguma experiência traumática ao longo da sua vida trará os sinais desta experiência no seu timbre de voz ou na sua maneira de falar e até mesmo em sua postura. Isto é perfeitamente normal.
Uma criança recém nascida é o mais perfeito exemplo da má influencia da experiência na nossa performance vocal. Ela [a criança] pode berrar por horas com a máxima pressão sonora, que o corpo dela ag¸enta sem deixar fica-la rouca. Isso é possível porquê a criança sabe usar perfeitamente o seu corpo de uma forma instintiva, sem preconceitos, técnicas adquiridas, frescuras, problemas psicológicos e receios. Ela simplesmente usa a voz da forma que a mãe natureza ensinou. Se nós tentarmos fazer a mesma coisa que a criança, no dia seguinte certamente não poderemos mais falar por problemas de garganta. Segundo a Helena W–hl Coelho: "A maioria dos problemas de postura se devem não a falta De atenção ou inaptidão física, mas às perturbaçžes de caráter psíquico. Corpos pesados, encolhidos, desajeitados, tensos ou inconsistentes (moleiržes...) são evidências visíveis de vidas interiores correspondentes e assim também são os sons por eles produzidos".
Todavia, o importante a ser entendido é que todos são problemas ultrapassáveis e na maioria dos casos, um bom trabalho feito por um bom profissional (professor de canto) sozinho ou em conjunto com outro bom profissional da psicologia, pode trazer de volta o som original da voz do indivíduo. Como já introduzimos o conceito de postura, iremos falar acerca deste outro conceito essencial.
POSTURA
O corpo e a personalidade são ligados diretamente à emissão sonora. Há um terceiro fator também fundamental que porém não anda separado dos primeiros dois: a postura. A rigidez é altamente desaconselhável. Uma boa postura significa prontidão para responder aos comandos do cérebro necessários à ação. Portanto, se o corpo estiver rijo, teremos primeiro que relaxar os músculos para depois responder aos comandos e só depois executar a ação. De acordo com o M. Mc Callion, são quatro os principais ímaus usosî da nossa íboa posturaî:
Jogar a cabeça para traz: é muito comum de se ver levantar a cabeça ao invés de abaixar o queixo na inspiração para falar ou cantar. Isto é bastante prejudicial, pois desta maneira curvam-se as vértebras cervicais para trás, consequentemente, nossa laringe curva-se também e a emissão de nossa voz fica prejudicada.
Deixar o corpo ser puxado para baixo pela gravidade: a gravidade atua constantemente sobre o nosso corpo, mas nós não atuamos constantemente contra ela! Este é o problema principal da nossa postura encurvada. Esta tendência costuma ser relacionada ao item acima que acabamos de discutir. Na hora de cantar esta má postura faz uma grande diferença pois com a coluna encurvada a respiração fica dificultada e assim a voz não ganha suporte adequado. Além disso, muitas pessoas ficam psicologicamente influenciadas por esta má postura, chegando ás vezes a ficar deprimidas fazendo com que a voz sofra as conseq¸ências disso.
Curvar a coluna para dentro: Há aqueles que empurram (também como efeito da gravidade) a parte baixa das costas para dentro, estufando a barriga para fora. Isso força a respiração pela parte alta dos pulmžes o que provoca uma falta de apoio no diafragma com várias conseq¸ências negativas: sob muito stress gera-se muita adrenalina, ficamos excitados e o controle da nossa voz desaparece por completo. Mais uma vez, este tipo de atitude dificulta e até mesmo impossibilita a execução de frases ou notas longas.
Travar os joelhos: Esta outra má postura normalmente acontece em conjunto com a curvatura da coluna para dentro. Os joelhos devem estar sempre levemente flexionados como se tivéssemos que andar para frente a qualquer momento. Esta postura típica é acompanhada de uma forte rigidez dos músculos abdominais e como resultado um tom de voz forçado da garganta, com tendência a enrijecer as cordas vocais.
A postura, portanto, é um fator a ser levado em grande consideração quando queremos começar a nossa longa jornada rumo ao canto. Um exercício perfeito para controlarmos constantemente nossa postura, nos é sugerido pelos animais vertebrados. Ao observarmos estes animais mais detalhadamente poderemos notar que todos eles se movimentam a partir de um impulso da cabeça, ou seja, quando eles querem ir para frente, movimentam a cabeça primeiro, para depois trazer o resto da coluna. Conseq¸entemente o corpo todo segue o movimento instintivo da cabeça. O melhor exemplo visual disso é o movimento que a cobra faz para andar: ela primeiro move a cabeça e este movimento se distribui ao longo da coluna gerando assim os típicos íSî que fazem ela andar. Como os animais nós também somos vertebrados, a nossa única diferença está no fato de sermos os únicos que ficam eretos sobre duas pernas. Esta nossa posição é muito bonita e é também um marco da nossa superioridade perante os animais, mas na verdade ela é completamente prejudicial a nossa postura como também a saúde da nossa coluna. Nunca vi animal com problemas de coluna! E não vai existir, pois como no caso da criança eles agem instintivamente como a mãe natureza os ensinou. O exercício, mencionado anteriormente, consiste em nos movimentarmos feito vertebrados de quatro pernas. Ao andarmos para frente devemos pensar em dois movimentos simultâneos: um real para frente como ser humano, e o outro imaginário para cima, como os animais que andam na horizontal. A nossa cabeça fazendo uma força constante para cima enquanto que nós andamos para frente na realidade. Este esforço tem que ser constante pois a força de gravidade para nós humanos é implacável. Irá nos puxar cada vez mais para baixo e acabaremos cedendo aos poucos até chegar a época da nossa velhice quando estaremos completamente encurvados. Já falamos do corpo, da postura, agora iremos falar da voz, propriamente dita que é o foco central de nosso estudo.
A VOZ
Uma importante definição acerca do assunto voz, podemos encontrar em Helena W–hl Coelho: "A voz é a utilização inteligente dos ruídos e sons musicais produzidos no interior da laringe com o impulso da expiração controlada, ampliados e timbrados nas cavidades de ressonância e modelados pelos articuladores no tempo, no meio e no estado pulsátil de cada pessoa".
Indo um pouco mais além (ou recuando um pouco mais), o cérebro é o órgão responsçvel pelo trabalho todo de criação musical e afinação necessçrios para uma correta emissão sonora. Portanto, para se ter uma boa afinação vocal em primeiro lugar, devemos ter uma boa afinação interna (a do cérebro). Para isto, eu pessoalmente acho que tocar um instrumento além de solfejar bem qualquer partitura de música, tornam-se fatores que diferenciam radicalmente a performance dos cantores, e temos exemplos disso o tempo todo e em todos os estilos musicais.
Portanto, para melhorarmos radicalmente a afinação interna, não temos outra maneira a não ser, estudarmos um instrumento e/ou aprendermos a ler música muito bem. A voz criada no cérebro se torna audível através das cordas vocais. As cordas vocais são o segundo e não menos importante elemento a ser considerado. Elas precisam ser flexíveis o suficiente para permitir a execução do som da melhor forma possível. Aquele som que provém do nosso cérebro. Para isto existem os vocalizes, que são exercícios próprios para o íaquecimentoî das cordas vocais. Estes exercícios são muito variados em termos de ritmos, tonalidades e extensão vocçlica e atuam diretamente na ílimpezaî e flexibilidade das pregas vocais. Funcionam como uma ginçstica muscular e devem ser feitos diariamente. Vejamos o que Marcos Leite diz a respeito: "Os vocalizes tem a função primeira de exercitar e moldar a voz e a cabeça do cantor, através das progressžes cromçticas ascendentes e descendentes. (...) Através de constantes repetiçžes em vário tons, o cantor se familiariza com os diferentes tipos de passagens melódicas e transporta este aprendizado para o seu arquivo de possibilidades de realização, para usar quando as cançžes assim o pedirem". E mais adiante sempre a respeito dos vocalizes: "Cada emissão de cada frase deve estar plena de sentido para o cantor, com um conteúdo afetivo. (...) A quantidade é importante, mas nunca em detrimento da qualidade. Vocalizar com a cabeça distante, com o pensamento em outras coisas, não adianta nada para o crescimento vocal e artístico".
O outro lugar onde os vocalizes atuam é na respiração/apoio. Como acontece nos defeitos de postura onde o ser humano tem uma grande tendência a desaprender tudo que aprendeu naturalmente quando criança, na respiração é a mesma coisa. Se quisermos aprender a respirar corretamente basta observar uma criança. Ela sabe exatamente como fazer para ter uma respiração que permita suportar os berros interminçveis que ela sabe dar, sem cansar nem os pulmžes e nem as pregas vocais. Então é provçvel que, na nossa idade, tenhamos que re-aprender a respirar para depois dominar o apoio.
Diana Goulart da uma boa definição de apoio: "[O apoio] é a sustentação da coluna de ar que faz parte da produção do som. Quando você inspira, o ar enche seus pulmžes, alargando a região das costelas e estendendo os músculos intercostais. Ao mesmo tempo, o diafragma se abaixa e expande para os lados (sem o seu controle voluntário). O que você pode ñ e deve controlar são os músculos intercostais e abdominais. Assim, o diafragma e todos os músculos envolvidos no processo respiratório estão na posição adequada a proporcionar uma boa emissão vocal, pois eles controlam a saída de ar e do som (que ocorre na expiração)".
Portanto, o apoio, por ser a força motriz que impulsiona a saída de ar na emissão sonora, é de importância fundamental. E é por isto que todos os professores de canto do mundo e de qualquer gênero musical focalizam constantemente este ponto, pois sem o correto uso do apoio não pode haver um correto uso da voz. O cansaço é o primeiro sintoma de um mau aproveitamento da respiração/apoio, pois os músculos intercostais que usamos comumente para respirar, são muito fracos e se cansam rapidamente. A ginçstica aeróbica é especialista em atuar no desaprendimento da correta maneira de respirar e em piorar a nossa postura e uma série de outros males ñ inspira, estufa o peito! ñ quem nunca fez isso?
Existem vçrios exercícios (às vezes chamados de vocalizes também) para aprender a respirar corretamente e servem também para ajudar na utilização proveitosa do apoio. Alguns são genéricos e podem ser feitos por todos sem prejuízos e até com um certo aproveitamento. A literatura brasileira está repleta de manuais e livros que tratam deste assunto especificamente. Mas o resultado verdadeiramente satisfatório só pode ser conseguido com o acompanhamento de um bom professor de canto. Este irç analisar caso a caso, como um bom médico de antigamente, e se possuir um razoçvel conhecimento de psicologia, certamente conseguirá ajudá-lo a alcançar o seu objetivo.
Em geral, pela minha experiência neste ramo, acho que demora muito para se aprender a usar corretamente a respiração/apoio, mas também depois de bem assimilado, se torna a coisa mais fácil e normal do mundo. Um bom início para qualquer um que queira se chegar a arte de cantar, é a participação em algum coral.
O CORO
Ao longo da minha vida, já regi vários corais e participei de outros. Escrevi arranjos para grandes, pequenos e médios coros e uma coisa foi sempre comum a todas estas experiências: o coral é uma grande escola para todos os participantes, sejam eles cantores, maestros ou arranjadores. É uma escola de vida pela convivência que se tem com um grupo heterogêneo; é uma escola de canto pois se aprende fazendo e observando o seu companheiro; é uma escola para os dirigentes pois eles aprendem muito com as reaçžes do grupo ñ a arranjo não funcionou, as pessoas estão cansadas, não conseguem cantar este arranjo, etc. ñ todos estes desafios obrigam os dirigentes em geral a terem um crescimento rápido e a desenvolverem uma flexibilidade digna de um grande líder. Helena W–hl Coelho fala a respeito: "O trabalho de técnica vocal com corais não desenvolve apenas condiçžes e habilidades vocais de coralistas. Promove, também, mudanças em suas estruturas de sensibilidade e conhecimento. A partir do momento em que os referenciais e parâmetros de uma pessoa são questionados, ou mesmo alterados, modifica-se seu equilíbrio em relação a si mesma e ao seu meio. Esse desequilíbrio não é necessariamente uma experiência negativa; ao contrario, é o que promove o impulso para a busca de um novo equilíbrio e, nesse processo é possível crescer". Concordo plenamente.
O Coro é também um grupo completamente heterogêneo onde se misturam e se integram as mais diferentes personalidades musicais e onde o individualismo de alguém pode facilmente vir a prevalecer por se tratar de uma forma de expressão artística que lida com palco e público. Nem sempre todos os integrantes do coral fazem aula de canto e isto sempre atrapalha o trabalho do Maestro. Enfim, podemos dizer que o coral é o lugar onde se resumem e se condensam todas as facetas que a técnica vocal pode vir a ter.
EXERCÕCIOS
Poderia, como parte final do meu trabalho, inserir aqui alguns exercícios para a postura, a respiração/apoio e voz que utilizo nas minhas aulas, nos corais e nos ensaios em geral. Entretanto, como já existe uma boa literatura tratando destes aspectos, prefiro colocar na Bibliografia alguns textos que conheço e que podem ser adquiridos nas melhores livrarias.
O livro da Prof Diana Goulart é muito bom e rico em vocalizes. Foge totalmente dos vocalizes de tipo clássico colocando nos 2 CDs exercícios que exploram os mais variados estilos da música popular brasileira.
O regente Marcos Leite, um aclamado músico brasileiro, colocou neste livro estudos sobre intervalos (das segundas até as oitavas). Livro de nível intermediário/avançado, desaconselhável para os principiantes, mas essencial para músicos com alguma experiência.
Michael Mc Callion é um grande estudioso da voz aplicada ao canto e a fala. Este livro pode ajudar na solução de problemas de fala, além de explicar muito bem tudo sobre o funcionamento do aparelho fonador. ²timo para aspirantes a locutores e atores. Žnico problema: não achei uma versão em português.
O livro da Helena W–hl Coelho - não conhecia até pouco tempo atrás - posso afirmar que este livro supera muitos outros que já encontrei em qualidade de material apresentado e sua forma didática. Um livro excelente. Estou aguardando ansiosamente um segundo volume.
Cris Delanno fez um resumo do resumo das técnicas vocais no seu livro formato de bolso. É um material que, acredito, muito relevante para a preparação de qualquer músico. O CD encartado no livro é bastante útil e completo. Importantíssimo para um aquecimento da voz rápido e eficiente quando se tem pouco tempo para vocalizar antes de uma apresentação.
BIBLIOGRAFIA
LEITE, Marcos. Canto Popular Brasileiro. Rio de Janeiro, Lumiar Editora, 2001.
GOULART, Diana. Por todo o Canto. Rio de Janeiro, Editora dos autores, 2000.
DELANNO, Cris. Mais que nunca é preciso cantar. Rio de Janeiro, I.E.I., 2000.
MC CALLION, Michael. The Voice Book. London, Faber and Faber Ltda., 1998.
W÷HL COELHO, Helena. Técnica vocal para coros. São Leopoldo ñ RS, Editora Sinodal, 1994.
Por favor, para esta apostila ou para agendar workshops, entrar em contato com emiliocantini@bol.com.br