Os Dedos Livre (parte)

Esta apostila é parte de um curso de Criatividade.

Através de exercícios práticos a Criatividade pode ser aprendida.
Para ter a apostila completa, entrar em contato com emilio@emiliocantini.com


IMPROVISAÇÃO: ESTE MONSTRO ATERRORIZANTE

Desde o aparecimento do homem de Neanderthal, provavelmente, algumas formas primordiais de ritmos eram produzidas a partir de troncos ocos. De lá para cá absolutamente nada mudou. O músico que toca numa percussão da Latin Percussion profissional assinada por Tito Puente e microfonada com Shure SM57 está fazendo exatamente a mesma coisa que o homem de Neanderthal fazia no tronco. Naturalmente com mais recursos de precisão, os instrumentos são melhores que os troncos e os movimentos humanos são mais aperfeiçoados. De qualquer forma, isto que eles faziam, era chamado de improvisação. Vejamos um pouco de História:

Enquanto nos países em desenvolvimento como a África e a Índia continuava esse tipo de música improvisada, a música ocidental vinha sendo codificada, e escrita em partituras. O instinto do homem para improvisação foi se perdendo e, aos poucos, os músicos se tornaram verdadeiras "máquinas de leitura musical". A improvisação veio cedendo lugar para a interpretação de partituras criadas e escritas por outros, processo este mais confortável e menos "arriscado". Com a chagada dos povos negros nos EUA, foi se criando um novo gênero musical chamado Blues. Esse gênero musical trouxe novamente a tona a improvisação na cultura ocidental. O jazz veio, depois, como evolução do Blues. Os músicos americanos estavam cansados de improvisar utilizando sempre uma mesma escala (a escala Blues)numa música inteira. Alguns músicos como Charlie Parker foram procurando outras escalas para serem aplicadas aqueles acordes de Blues. Colocando outros acordes descobriram outras escalas que geraram outros acordes e assim sucessivamente. Até chegar aos anos 60 onde o jazz se transformou definitivamente numa linguagem Free, que significa, linguagem livre. Cada um tocava o acorde que queria e na escala que queria e no tempo que quisesse. Os principais expoentes dessa corrente foram Ornette Coleman, Charlie Haden, Paul Blay, Cecyl Taylor, Billy Higgins. Mais tarde, os músicos americanos foram em massa introduzir este gênero na Europa, em principio através da França, que foi o primeiro país europeu a acolher os muúsicos de Jazz calorosamente.

Em muitos países o Jazz, com toda a sua enorme cultura musical, não fui introduzido ainda, e a improvisação continua para uma grande maioria de músicos um mundo desconhecido e inexplorado. O Improvisação Gestual (outro nome possivel para Os Dedos Livres) nasceu como uma idéia de se recriar as condições primordiais quando o Homem tocava tambores feitos de troncos ocos. Para extrair definitivamente tudo que existe de ancestral musicalmente adquirido desde a pré-história até os dias atuais. E o Improvisação Gestual veio para nos ajudar nesta difícil tarefa.


APERFEIÇOANDO NOSSA ATITUDE CRIATIVA

A primeira coisa a compreender é que a criatividade não é privilégio de alguns. Todos nós podemos criar. Uma vez que adquirimos confiança em nós mesmos nos tornamos capazes de descobrir nossos potenciais mais escondidos. O gigante criativo que está adormecido em todos nós acorda quando aceitamos o fato que a criatividade pode ser aprendida.

Um dos problemas quando iniciamos nosso aprendizado é que ao usar nossa criatividade somos imediatamente intimidados por nossos mestres e ídolos, pensando falsamente que tocar criativamente é imitar o estilo deles. Temos que ter sempre em mente que, embora imitar é uma parte válida no desenvolvimento de nossos próprios estilos, de nenhuma maneira podemos nos deixar subjugar por um grande improvisador que, sem dúvida nenhuma, passou muitos anos praticando e é por esta razão que se tornou um artista aclamado.

Com esta apostila tentarei mostrar alguns caminhos a percorrer para a descoberta de seu potencial através de uma perspectiva inovadora que é a ...

Improvisação Gestual (Os dedos Livres)

Improvisação Gestual significa, na pratica, "conversar" com o lado direito do cérebro, relaxar as áreas que você já domina e com as quais se sente confortável, e trabalhar o lado instintivo e intuitivo do cérebro.

O ponto de partida de todos os músicos, não importando o grau de técnica já adquirido, será o mesmo. Esclarecerei isso fazendo uma analogia com a arte plástica:

Uma das primeiras técnicas básicas usadas em aulas de desenho é conhecido como Desenho Gestual ou Gesture Drawing. O aluno de pintura através de uma série de rabiscos, produz um desenho com linhas múltiplas em todas as direções, deixando a caneta ou lápis fazer curvas, círculos, ou linhas diretas. A intenção é se soltar, para que você possa se preparar para algo mais desenvolvido e completo. Ás vezes o Desenho Gestual não produz nada que se assemelhe a algo concreto, mas em outros momentos produz uma obra de arte completa notável.

Usando a mesma técnica com música, Tocar Gestualmente ou Gesture Playing é simplesmente se soltar, deixando a linha musical ir em qualquer direção, usando livremente o instrumento todo. Isto deve ser feito diariamente como um aquecimento, e no seu devido tempo, estes exercícios farão com que você entre em contato com uma linguagem musical mais elevada o que, sem dúvida nenhuma, conduzirá a um nível de improvisação mais completo.

Esta técnica é especialmente útil por usar o lado direito do cérebro que é o lado intuitivo e criativo. Vamos ver o que significa:

Lado Direito do Cérebro

INTUITIVO aprendizagem por insight, freq¸entemente baseado em padrões incompletos, pressentimentos, sentimentos ou imagens visuais.

NÃO-RACIONAL não necessidade de razão ou de fatos; não faz julgamento de valores.

NÃO-VERBAL consciência das coisas mas sem necessidade do uso da linguagem e da lógica.

Lado Esquerdo do Cérebro

VERBAL usa palavras para nomear, descrever e definir.

RACIONAL chega a conclusões através do raciocínio e de fatos.

LÓGICO as conclusões são baseadas na lógica; tudo é deduzido com encadeamento lógico.

SÍMBOLOS uso de símbolos para representar algo. Por exemplo, em música usamos símbolos como D-7, G-7 para representar uma área mais ou menos extensa de sons. Esses símbolos algumas vezes inibem o músico, pois o pensamento e esses símbolos são produzidos e interpretados pelo lado esquerdo do cérebro, reduzindo assim sua produção criativa.

Quanto mais nos aproximamos da música e da vida pelo lado direito do cérebro, mais intuitivos e criativos nos tornamos.

Aconselho aos músicos a fazerem os exercícios de Desenho Gestual juntamente com os exercícios de Improvisação Gestual. Nosso cérebro é elástico e dessa forma quanto mais usamos o lado criativo, mais fortes nos tornamos musicalmente. Vejamos mais:

Liberdade

Esta abordagem o ajudará a se libertar de idéias preconcebidas sobre improvisação. Se soltando você começa a perceber que está tudo bem se você tocar uma nota ou série de notas que não estão relacionadas em qualquer escala ou progressão harmônica. Isto o tornará mais confiante, porque você terá experimentado a liberdade de escolher e esta liberdade se incorporará ao seu estilo. Isto só pode ser realizado com a ajuda do professor que o incentivará a desafiar áreas cada vez mais árduas, sendo esses precisamente os momentos em que você precisa se sentir seguro para se arriscar. A coisa principal a ser entendida claramente é que não estamos esperando um senso musical perfeito e sim aproveitando o momento criativo.

Dissonante x Consoante

ACORDES DISSONANTES acordes contendo um ou mais intervalos dissonantes.

INTERVALOS DISSONANTES intervalos de segunda, sétima e nona diminutos e aumentados

ACORDES CONSOANTES acordes que não contêm intervalos dissonantes

INTERVALOS CONSOANTES todos os intervalos perfeitos - uníssono, oitavas, quartas, quintas, terças e sextas maiores e menores.

Um dos objetivos deste trabalho é quebrar as barreiras que rotulam música dissonante e consoant. Sinto que quanto mais crescemos musicalmente, mais todos os sons se relacionam. Então, dissonância e consonância são conceitos subjetivos. Temos que aprender a relacionar igualmente todas as doze notas na escala cromática, em vez de pô-las em categorias. Segue um exemplo para explicar melhor:

Se uma composição fosse totalmente dissonante com exceção de alguns espaços onde fossem colocados acordes e intervalos consoantes, estes soariam como dissonantes. Podemos concluir então que é a situação musical que define o que é consoante e o que é dissonante.

Se você expandir este conceito a um nível mais elevado de audição e percepção estas categorias se dissipariam.

 

Como fazer a Improvisação Gestual

NA GUITARRA

Horizontal, Vertical, Diagonal

Para ajudá-lo a entender melhor esta primeira lição básica em criatividade, lhes darei uma sugestão de 3 direções no fretboard - horizontal, vertical, e diagonal e algumas combinações das três (veja o exemplo).

Estas setas dão idéias de algumas direções a seguir na Improvisação Gestual. O próximo passo será o de criar suas próprias combinações.

Como isso tudo é feito sem nenhum padrão ou direção estamos, na verdade, lidando com criatividade em seu nível mais puro.

Texturas, Efeitos Especiais

Se você fizer o que falei acima, descobrirá novas texturas no som do seu instrumento como também efeitos especiais, por exemplo: som alto ou suave, glissando, ligado, palhetando perto da ponte, longe da ponte, hammer-ons, pull-offs e deslizando. Isto torna a Improvisação Gestual mais interessante ainda. Quanto mais ornamentações você acrescentar ao seu improviso, por mais tempo pode criar, pois cada nova textura acrescenta mais tempo ao solo e este vai se estendendo até o seu limite.

Improvisando com Combinações de Cordas

Começaremos a improvisar em conjunto de cordas para nos conscientizarmos das diferentes áreas. O primeiro conjunto será as 4 cordas de cima ; depois com as 4 cordas do meio, e finalmente com as 4 cordas de baixo. Usaremos também 2 combinações de cordas, por exemplo: : 1-2, 1-3, 1-4, 1-5, 1-6, 2-3, 2-4, etc.

A combinação das notas pode ser tocada como uma única linha melódica ou como combinações alternadas com arpejos ou acordes. As possibilidades são muitas e você deve inventar as suas próprias combinações. Este tipo de improvisação introduzirá intervalos amplos que normalmente você não tocaria, e também reforça a sua confiança para se arriscar, aumentando seu poder criativo.

EM TODOS OS INSTRUMENTOS, INCLUSIVE NA GUITARRA

Comece tocando notas de 1/4, esteja certo de não começar em uma posição que você já domine. Relaxe seus dedos e comece a tocar seu instrumento por toda parte deixando que seus dedos o guiem. Não se preocupe como isto irá soar. Você estará criando a um nível puro. Num dado momento mude para notas de 1/8 (para extrair algumas idéias veja os patterns na página 4), isto acelerará o processo. Faça a mesma coisa novamente com notas de 1/16. Tente este exercício lentamente por aproximadamente 5 a 10 minutos. Dê um intervalo e repita o processo.

Em seguida, repita o exercício prévio mas prestando atenção nas notas que seus dedos estão tocando. Você consegue reconhecê-las? Se não, não se preocupe, com o tempo você vai conseguir. Neste momento você está desenvolvendo seu instinto para criar e escutar o que você está tocando.

Agora escolha um Blues simples ou uma música que você saiba bem, para que você não tenha que pensar nela. Guarde a harmonia em algum lugar na parte de trás de sua mente e comece a fazer a Improvisação Gestual usando o instrumento todo com a base tocando junto. Não toque o que você já sabe. Procure algo novo, relaxe e improvise. Se possível, grave sua sessão para monitorar seu progresso. Você está se divertindo? Faça freq¸entemente este exercício. 10 a 15 minutos de cada vez. Não se canse. se você estiver cansado isto significa que você está pensando muito.

Sem seu instrumento, visualize e ouça um pedaço de improviso em sua cabeça. Imediatamente tente recriar o que você ouviu. Se sair diferente, não se incomode, trabalhe com o que você produziu. Não se deixe levar por regras. Você está criando! Se permita ser criativo. Ouvir solos em sua cabeça deveria ser um processo contínuo. Não importa agora, o como você está se saindo. Cronometre cantando em sua cabeça um solo de 5 minutos. Você se sente solto e criativo? Tente novamente e novamente, deixe isto fazer parte de seu estilo de vida musical.

Neste momento, acrescente algumas figuras rítmicas aos exercícios acima. No começo, tente com alguma que você saiba bem e que já tenha usado várias vezes. De vez em quando acrescente uma figura nova. Escute os outros instrumentos para adquirir idéias novas.

Estas idéias estão por ai já há algum tempo. Eu penso que já é hora de nós, como músicos incorporarmos estas idéias em nosso jeito de tocar.


Para saber mais a respeito da Improvisação Gestual (Os Dedos Livres) ou agendar Workshops, por favor, entre em contato pelo email: emiliocantini@bol.com.br