Neste
artigo, abordaremos um assunto pouco tratado em manuais e livros sobre a
improvisação Jazz: o Blues e a Blue Note ñ a nota que deu o nome a mais
famosa gravadora da indústria fonográfica americana da era do Jazz.
Esta
nota é o coração do estilo Blues. Sem esta única nota a sonoridade do
Blues não seria nem de perto a que conhecemos hoje.
Historicamente foi o
lamento dos cantores se acompanhando com as tradicionais guitarras acústicas
americanas que deu origem a esta escala. Lentamente, ao longo de décadas, os
sons ìsemitonadosî das vozes de lamento e de tristeza dos negros
escravizados foram se ajustando e se acomodando até chegarem a formar as seis
notas básicas que compõem a escala que conhecemos nos dias de hoje.
A
escala Blues de C é formada pelas notas C, Eb, F, F#, G, Bb e com ela podemos
improvisar em qualquer Blues em C, seja ele maior ou menor.
Na
escala acima a Blue Note é o F#. Contando os graus da escala teremos: I, bIII,
IV, #IV, V, bVII. Portanto a Blue Note é a quarta aumentada (#IV). Se
retirarmos a Blue Note desta escala, teremos exatamente a escala Pentafônica
(menor) muito usada na música oriental e na música modal. A Pentafônica (ou
Pentatônica) é uma escala de origem muito mais antiga do que a escala Blues.
Então,
é na Blue Note que reside a diferença entre a escala Blues e a Pentafônica,
e é a própria escala Blues que dá o nome a esta nota característica. De
uma forma mais ampla, o Blues, elegeu a Blue Note como a nota mais peculiar e
intrínseca de seu gênero musical.
Dentro
da harmonia do Blues, desde as estruturas mais simples até as mais complexas,
a escala Blues pode ser usada para improvisar sem medo de se tropeçar em
notas que não ìfuncionemî, que soem mal. Esta é a característica melhor
desta escala a despeito de sua sonoridade bem simplória. Esta característica
também lhe concedeu um belo lugar ao sol em todos os gêneros musicais que
historicamente vieram depois do Blues: Rhythm & Blues, Rock & Roll,
POP, etc., chamados de ìnetosî do Blues.
Esta
escala pela sua simplicidade de execução e pela sua beleza e funcionalidade,
foi usada em 90% das gravações populares internacionais dos últimos 50 anos
e ainda hoje está sendo usada cada vez mais.
Mas
a propriedade mais interessante e intrigante desta escala está no fato de ela
funcionar bem, apesar dos intervalos dissonantes que ela cria com a harmonia.
O que acontece com esta escala é algo quase místico. Ela funciona bem
criando harmonias agradáveis apesar de todas as disson’ncias que gera.
De todas as outras
escalas: maiores, menores, diminutas, hexatonais, etc. temos uma explicação
técnica da maneira como elas se relacionam com a harmonia, do porquê elas
soam mais ou menos bem em determinadas progressões, mas da escala Blues não
tem algum tipo de explicação ortodoxa plausível. Baste pensar que nos três
acordes principais do Blues tradicional (I7, IV7 e V7) ela forma
respectivamente as seguintes harmonias: I7(#4), IV7(b9) e V7(7M)! Ou seja,
seriam acordes demasiadamente complexos para serem aceitos pelos nossos
ouvidos de uma maneira tranq¸ila. No entanto, porém, soam bem e ninguém
nunca reclamou da complexidade deles. Muito pelo contrario. Neste aspecto
reside o misticismo do que falamos antes.
Ela
simplesmente... funciona. Experimentem!